09:54 - 05/05/14: Crescente nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, a resistência de muitos pais à vacinação tem impacto direto no Brasil. O vai e vem de turistas coloca a população brasileira em contato com agentes transmissores de males como sarampo – já foram registrados surtos no Nordeste e Sudeste do país – e coqueluche, doenças erradicadas no Brasil há algumas décadas.
Dois em cada três americanos adultos recusam vacinas contra a gripe e a mesma proporção se abstêm de vacinar as adolescentes contra o vírus do papiloma humano (HPV), causador do câncer de colo de útero, segundo os Centros Federais de Controle e Prevenção de doenças. Além do temor de efeitos colaterais, há entre os norte-americanos a crença de que algumas vacinas provocam autismo.
“Há casos de brasileiros que viajam e, no retorno, geram epidemias”, observa o médico Renato Kfouri, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim).
Kfouri lembra que um dos maiores estragos foi provocado em 2007, quando os dois filhos de um casal de pediatras antroposóficos (abordagem complementar à medicina que integra as teorias e práticas da medicina moderna a tratamentos homeopáticos) foram diagnosticados com sarampo nos Estados Unidos. Durante o voo de volta a São Paulo outras crianças foram infectadas e a Vigilância Sanitária teve que monitorar demais passageiros.
“Foi uma decisão individual que demandou toda a sociedade e ainda gerou custo para o poder público”, avalia Kfouri.
O presidente da Sbim explica que a vacinação no Brasil é obrigatória, mas que não há qualquer punição prevista para quem não cumpre a determinação. Também não há uma política de barreira para garantir a entrada apenas de turistas devidamente imunizados no país.
“Mas a Justiça brasileira já entendeu, em alguns casos, que não vacinar os filhos caracteriza maus-tratos por parte dos pais”, pondera Renato Kfouri.
“Os médicos não sabem tudo”, diz a norte-americana Kathleen Wiederman, de 42 anos. Ela acredita que a natureza é suficiente para combater as doenças e prefere recorrer a tratamentos alternativos.
Kathleen escolheu dar à luz em casa e resiste na hora de vacinar a filha de cinco anos. Só a insistência do marido a levou a aceitar que imunizassem a pequena contra a varíola e o sarampo, mas ela recusou a vacina contra poliomielite.
“Nos preocupamos com a população hesitante. Em geral, são pessoas com formação universitária e que pertencem à classe média alta”, revela Barry Blomm, professor de medicina na Universidade de Harvard. E o número “aumenta em todo lugar”, assegura.
Quase todos os Estados americanos admitem exceções à vacinação, por motivos religiosos ou pessoais. “Hoje em dia você pode deixar de se vacinar por razões filosóficas. É uma estupidez”, denuncia Anne Gershon, diretora do Departamento de Doenças Contagiosas Infantis da Universidade de Columbia. “É nocivo para muita gente”.
Campanha de proteção contra a gripe até sexta
A campanha de vacinação contra a gripe termina na próxima sexta-feira, mas até agora apenas 30% – pouco mais de 1,2 milhão das 5 milhões de pessoas que compõem o grupo prioritário de imunização em Minas Gerais, procuraram os postos de saúde.
A meta da Secretaria de Estado de Saúde (SES) é imunizar 80% desse grupo. Mesmo quem se vacinou no ano passado deve repetir a dose.
“Qualquer indivíduo pode tomar a vacina, mas na rede pública a preferência é o chamado grupo de risco, como profissionais de saúde, crianças até cinco anos, idosos e portadores de doenças crônicas, como asma”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Imunização (Sbim), Renato Kfouri.
A vacina contra a gripe está disponível em todas as unidades básicas de saúde do estado. É gratuita e somente contraindicada para pessoas com histórico de reação anafilática prévia ou alergia severa relacionada a ovo de galinha e seus derivados, ou a qualquer componente da vacina. E também para pessoas que apresentaram reações anafiláticas graves a doses anteriores.
A vacinação pode reduzir em até 45% o número de hospitalização por pneumonia e em até 75% a mortalidade global. Na população idosa, o risco da evolução de uma gripe para pneumonia cai em cerca de 60%, e o risco global de hospitalização e morte pode ser reduzido em 50% e 68%, respectivamente, a partir da imunização regular.
Uma curiosidade: a maioria dos adultos saudáveis pode transmitir o vírus da gripe um dia antes de desenvolver os sintomas e até sete dias depois de ficar doente.
Iracema Barreto
Hoje em Dia.
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